O projecto

ana

Estava  num workshop de Narrativa Fotográfica quando me foi pedido que fosse para a rua desenvolver um projecto. Assim, a frio, “um projecto”. Sem tema, sem muito tempo para pensar, só pegar na máquina e ir. Estávamos em Julho, num Chiado com muita gente e ainda mais calor. Agarrei em folhas brancas, passei numa loja para comprar marcadores e resolvi exorcizar alguns dos meus medos: falar com estranhos, convencê-los a deixarem-me fotografá-los [com toda a coragem que isso requer para alguém sem grandes aptidões sociais]. Mas não podia ser só isso, um retrato. Daí as folhas brancas, daí os marcadores.

Numa zona onde é mais fácil encontrar um turista do que um local, resolvi dar-lhes a palavra. Neste caso, pedir-lhes palavras. E guardá-las, a todas, numa foto. Era esse o meu projecto, decidi na hora: pedir a estrangeiros que me descrevessem Lisboa numa palavra, na sua língua materna, que a escrevessem numa folha e que me deixassem fotografá-los. Em meia hora falei  com um grupo de alemães que me pediu dicas de restaurantes, com um japonês que me pediu uma selfie, com um inglês que me pediu o telefone. O desconforto virou entusiasmo, vontade de querer juntar mais palavras, de fotografar mais caras. E assim nasceu o Lisbonary.

Nasci em Lisboa, vivo em Lisboa, adoro viajar para poder voltar a Lisboa. E não há dia em que não pense como gostava de ser turista para poder olhá-la pela primeira vez, com aquele entusiasmo de quem tem tudo para descobrir na cidade mais bonita do mundo [porque é]. Não dá para olhar assim, mas dá para acrescentar mais e mais palavras a este Lisbonary, uma espécie de “dicionário ilustrado de Babel”. À ideia inicial  veio juntar-se uma outra: ilustrar cada palavra com uma foto de Lisboa. Literal, conceptual, óbvia, uma vista, um detalhe, com mais paixão do que técnica. Uma espécie de negócio [mais ou menos] justo: um bocadinho de Lisboa em troca de uma palavra.

Por fim – que podia/devia ser no início – obrigada à Canon pelo entusiasmo com que recebeu este projecto nascido numa tarde quente de Julho. Finalmente, o meu “projecto”.

Estarei por aqui nos próximos tempos, todos os dias. Estejam também, todos os dias.